CRÍTICA: Pela Metade

Em Pela Metade, curta metragem de estréia da diretora Ana Divino, a apreensão do espaço-tempo é dada em fragmentos como fotogramas separados que remetem a imagens. Se na modernidade o cinema é depositário da memória, esta, por sua vez, tornou-se imagem desmaterializada.

Na primeira cena temos um pequeno travelling de um personagem em situação no mundo a caminhar num belo plano geral. No plano seguinte o mesmo sujeito entra em casa numa câmera em plongée seguida de pequenos inserts/flashes de uma festa. Amanhece e o ritmo do cotidiano toma conta: acordar, passear com o cachorro e voltar para casa. Ao chegar pega um copo, deita-se no sofá e dorme. No sono é acometido por flashes de um morador de rua e a sua própria imagem na figura deste morador. O cotidiano se repete e o personagem novamente sai para passear com o cachorro. O copo volta à cena num pequeno close-up no qual o personagem observa o líquido contido nele para depois tomá-lo. Na cena seguinte, o mesmo copo é apenas observado pelo personagem. Um corte seguido de pequenos flashes de uma festa reaparecem. Na seqüência final o personagem monta uma câmera e liga a TV, deparando-se com sua própria imagem. Um plano geral de uma rua vazia e o curta acaba.

O mestre Antonioni já nos ensinara em Blow-Up que as imagens são ilusão e tudo depende da maneira como as manipulamos. Acontece que em tempos pós-modernos a imagem assume o real e o real passa a ser imagem.

Pela Metade mostra um personagem sem nome e identidade, um ser no mundo. Sua apreensão do cotidiano se dá em pequenos flashes desmaterializados como se estivessem presos num presente eterno, em imagens que se repetem.

O passado só pode ser apreendido por imagens, assim como sua identidade é imagem-simulacro. Não é a experiência concreta que o faz ter percepção do mundo social, mas imagens descontextualizadas. A cena em que olha para TV e vê a si mesmo pode representar um choque, mas também pode sugerir mais um simulacro. O personagem/sujeito está preso num cotidiano repetitivo e banal. O ver outro (mendigo) só é possível pela mediação de uma imagem-simulacro.

Pela Metade pretende ser um meta-vídeo que deseja passar a idéia que uma imagem por ela própria tem grande possibilidade de ser falsa ou o cinema tanto quanto vídeo são apenas depositários de imagens e nada mais.

Fernando Rodrigues Frias

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