Nova secretária do Audiovisual propõe metas de eficiência para o cinema brasileiro

Vejam um trecho da entrevista:

O primeiro programa que quero lançar é o do coletivo criativo. Vou selecionar coletivos já existentes e potencializá-los. Falar: “Apresente-me um plano estratégico, diga-me qual a sua política de empreendedorismo, crie uma marca, que o governo vai investir X.” Em vez de chamar o cara da trilha no fim do filme, bote o músico junto com o cineasta, o animador com o artista plástico, o estilista junto com alguém de teatro. Todo mundo junto para pensar coletivamente um produto. Minha ideia é ir além: montar um coletivo, selecionando indivíduos para ficar em imersão numa residência. Filmar isso 24 horas e talvez virar reality show. Mostrar na internet e aprimorar o coletivo a partir da intervenção de quem está vendo.

Entrevista completa:

http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2011/02/21/nova-secretaria-do-audiovisual-propoe-metas-de-eficiencia-para-cinema-brasileiro-923852573.asp

Vejam também uma análise da entrevista por CEZAR MIGLIORIN.

EM http://a8000.blogspot.com/

TENTANDO ENTENDER A ENTREVISTA DE ANA PAULA SANTANA, NOVA SECRETARIA DO AUDIOVISUAL.

Na verdade, meu esforço é para não entender rápido demais a entrevista, uma vez que ela é repleta de elementos que indicam que a Secretaria do Audiovisual está abrindo mão de ser um contrapeso ao mercado e à retórica da indústria para se adequar à lógica que domina o audiovisual comercial no cinema e na TV. O discurso da secretária está distante do que tem aparecido de forte e potente no cinema e no audiovisual contemporâneo, uma força que passa pelas periferias, coletivos, festivais, cineclubes, distribuição digital, pontos de cultura, etc. Ou seja, uma produção e um acesso pautados por uma relação pós-industrial de trabalho, criação e também estética. Uma relação que não é um projeto utópico de cinema, mas uma contingência, um estado de coisas no qual estamos inseridos. (escrevi sobre isso em: Por um cinema Pós-Industrial na revista Cinética).
            Vamos a alguns pontos da entrevista:
            A ideia de coletivos criativos pode ser ótima. Como sabemos, grande parte da produção mais inventiva que tem circulado em festivais e mostras no Brasil e no mundo foi gerada em coletivos que em suas equipes e formas de trabalho questionam a tradicional hierarquização que o cinema herdou da indústria. O que Ana Paula parece desconsiderar na entrevista é que muitos coletivos criativos já existem no Rio e em São Paulo, como sempre, mas também em Belo Horizonte, em Fortaleza, Recife ou em Porto Alegre, apenas para citar os grupos mais ativos e bem sucedidos. Explicita-se nesses grupos uma ruptura tipicamente pós-industrial entre centro e periferia. Entretanto, o que a secretária espera desses grupos é que eles façam planos estratégicos, inventem marcas, sejam empreendedores. Espera que eles se adequem ao mercado e à lógica industrial. O que a secretária talvez não tenha tido ainda a possibilidade de ver é que esta produção já passa pelo mercado – ser exibido em Roterdã, por exemplo, é uma forma de estar no mercado -,  mas que ela se faz longe dos moldes da indústria, longe da lógica que faz com que o processo seja uma passagem ideal da ideia ao produto. Temos hoje a felicidade de ver uma produção que está em Berlin e Cannes, ganhado Brasília e Tiradentes, mas que não é feita dentro da lógica da indústria. No meu entender, apostar em processos é perceber o que existe e potencializa-los, o que é completamente diferente de uma modelização para as demandas do mercado ou para os buracos da cadeia produtiva. Na verdade, o próprio mercado não espera uma modelização, ele é feito com uma intensa demanda de invenção. Pensar com o mercado é pensar em formas de incorporar e potencializar o descontrole da criação existente.

Assim, temo que o que a secretária chama de processo criativo é, na verdade, uma engenharia de produção em que o filme é um produto que deve fazer parte uma cadeia produtiva. Ou seja, os “processos” que não fomentarem a cadeia, não gerarem produtos competitivos, não devem existir. Dentro da lógica interna de sua reflexão, não há problema em pedir que os coletivos façam planos de negócio, criem marcas, e tudo que acompanha tal lógica – publicidade, público alvo etc – mas dentro da lógica do cinema pós-industrial, o mercado não os antecede. Ou seja, o mercado é o que pode se aproveitar dessas invenções, mas domesticá-la é uma forma de matar a criação.
            No momento em que a cultura se torna o paradigma do capitalismo, não podemos, nós da cultura, nos tornarmos nostálgicos da disciplina das indústrias. O exemplo de processo criativo dado na entrevista é paradigmático desse equivoco. O processo que Ana Paula Santana descreve do FICTV é, em certa medida, parecido com o bem sucedido DocTV, com uma diferença fundamental. O Processo do DocTV potencializava a criação descentralizada em que o mercado era um possibilidade, não o fim. Assim, não se estabelecia público alvo ou adequação a essa ou aquela classe. Quando o próprio estado decide fazer a separação entre arte para rico e arte para pobre – classe C, D e E, como falou Ana Paula – ele se torna um legitimador da falta de democracia em que alguns tem direito a certas experiências sensíveis outros não. Não é papel do estado decidir o que pode a sensibilidade do pobre.
            Se a arte ainda tem alguma potência é justamente a de dar a qualquer a possibilidade de uma relação estética com o mundo. Quando a escolha do que cada um deve ver é entregue para o mercado, como insinua Ana Paula, estamos, por um lado mimetizando o que a Globo, o SBT e a Record já fazem, por outro esvaziando toda possibilidade criativa tanto do público como dos produtores. O que a secretária coloca na entrevista é que para ela o gosto do espectador já existe, só precisa ser mapeado e atendido. Entretanto, se o cinema guarda alguma potência é justamente a possibilidade inventar formas de estar e se relacionar com o mundo, para criadores e espectadores,  formas que não são antecipáveis por planilhas, público alvo, marca, ou mercado.
            Se o cinema é uma indústria, minha argumentação não tem sentido algum. Entretanto não só o cinema não é uma indústria, como estamos em uma era pós-industrial e é no mundo atual, com suas possibilidades e limites, que somos demandados a pensar.
            Há ainda um outro ponto. Ana Paula Santana diz na entrevista algo que ouvimos também o cineasta Cacá Diegues dizer em recente palestra em Tiradentes: “que a produção se desenvolva no sentido de achar o público para sua obra”  Tal colocação parte do princípio que toda obra tem as mesmas possibilidades mercadológicas, o mesmo acesso às salas, a mesma publicidade, etc. Assim, privatizamos o fracasso e culpabilizamos os artistas e produtores. Não ser um sucesso torna-se um desacordo entre filme e público e não parte de condições dadas: falta de salas, salas ocupadas de maneira nada democrática, falta de filmes nacionais nas TVs, etc. Dizer que o filme nacional não atinge o público porque os realizadores o desprezam é o que mais interessa aos donos do mercado atualmente. Além, é claro, de colocar de lado o valor histórico e simbólico que uma obra pode ter, para além da imediata aprovação do mercado. Uma semana em Tiradentes com centenas e centenas de pessoas que raramente vão ao cinema assistindo a filmes que circulam na Europa, bastaria para vermos que o problema é menos das obras do que da organização do audiovisual contemporâneo.
            Finalmente, ao comentar a Carta de Tiradentes, ela diz que o circuito alternativo gera público mas não gera renda. Pois essa feliz constatação vai no âmago do problema contemporâneo. Os filmes existem e podem existir em número muito maior, o público os deseja, mas as salas não são feitas nem para esses filmes nem para esse público, pelo menos por enquanto. O que fazemos? Enquadramos a criação e inventamos produto para as roletas ou potencializamos a criação e o acesso? É o papel do estado que está em jogo.

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